Daily Archives: 24 de Abril de 2013

“Fazer boa televisão é muito caro e Portugal é um país pequeno e pobre”

Numa iniciativa de O MIRANTE o crítico de televisão Eduardo Cintra Torres conversou também sobre telenovelas e publicidade

Um dos mais polémicos e mediáticos críticos de televisão em Portugal considera existir cada vez mais publicidade inserida subliminarmente nas telenovelas, nos programas de televisão e mesmo nos telejornais. Diz que escreve por sentir que está a prestar um serviço público e já criou uma “carapaça” para lidar com as críticas.

O crítico de televisão, publicidade e professor universitário, Eduardo Cintra Torres, considera que o país é pequeno e pobre para se criarem mais canais de televisão regionais. Era preciso contar com o apoio de várias forças regionais para um projecto desta natureza avançar e não ficar submetido ao poder local. “Quantos mais canais existirem melhor, se as pessoas querem deve aparecer, mas existem vários problemas. É caro fazer televisão e se não se produzir algo com qualidade acaba por não ser bom nem para os espectadores nem para quem investe”, explicou.
Sobre as pressões que existem por parte do poder político, o crítico aproveitou ainda para sugerir que o Governo criasse o seu próprio canal. “O canal Parlamento poderia servir por exemplo para os deputados eleitos por Santarém organizarem debates, responderem a cartas ou emails de eleitores, porque não?”, questionou.
Eduardo Cintra Torres que dá aulas sobre Televisão, Publicidade, Ética da Comunicação e Técnicas de Comunicação Audiovisual na Universidade Católica Portuguesa, esteve durante a tarde de sexta-feira, 19 de Abril, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a convite de O MIRANTE, para participar no segundo de uma série de encontros que o jornal organiza, denominados “Conversas sobre Cultura e Política no Ribatejo”.
Inquirido sobre a viabilidade de se criar uma telenovela para um canal de televisão regional, aproveitando até recursos da própria comunidade, Eduardo Cintra Torres acredita que é algo que só resulta com um grande investimento. “A novela é um produto cultural, mas também industrial. Um produto com pouco investimento na produção dificilmente conseguirá ter sucesso porque se notava logo a diferença quando se pode ver uma coisa mais bem feita”, notou.
O crítico, que tem vários livros publicados, de onde se destaca “A Tragédia Televisiva” (Lisboa, ICS, 2006), considera que as “novas gerações consomem menos televisão” e que o próprio consumo está a mudar. “Hoje a televisão já se libertou do próprio televisor. Podemos ver um programa no computador, assistir a sete episódios de uma série de uma só vez sem sermos obrigados a vermos os anúncios”.
Eduardo Cintra Torres aproveitou para enumerar alguns exemplos de publicidade que aparece cada vez mais “subliminarmente” dentro das telenovelas, em programas de televisão ou mesmo nos telejornais. “A publicidade vai entrando cada vez mais nos conteúdos. Numa telenovela existe sempre uma mercearia ou um bar onde as marcas colocam os seus produtos. É um tipo de publicidade que já está legalizada. Vivemos uma televisão que já está cheia de marcas”, considerou.
Deu como exemplo o último filme do agente secreto James Bond. “Demoraram algum tempo porque ainda não tinham arranjado todas as marcas que pagam para os seus produtos aparecerem. O James Bond era um bêbado e agora aparece a beber coca-cola”, ironizou. Defende que os publicitários precisam mais do que nunca de serem inventivos já que é possível ver programas de televisão e saltar os anúncios. Em relação à edição impressa dos jornais, considera que os cadernos de classificados têm “tendência a desaparecer”, mas por enquanto continua a existir público.

“Ser insultado por gente medíocre é mais uma medalha”
Sobre as críticas que muitas vezes recebe por causa dos seus textos, Cintra Torres considera que se distingue “por não ter receio de escrever”. “Escrevo sempre o que acho que devo escrever. Escrevo por serviço público. Quando o anterior Governo começou a atacar as liberdades, a pressionar determinados media (…) senti-me na obrigação moral de escrever. Entrei por esse caminho que me valeu muitos insultos e três processos em tribunal”, recordou.
Desabafou que nessa altura não foi fácil digerir as críticas e a “opressão” que sentiu, mas com o tempo também ganhou uma “carapaça”. “Muitas pessoas ao lerem um adjectivo forte sobre alguma coisa que fizeram, respondem insultando as pessoas”. Na maioria das vezes, recusa-se a responder aos “insultos”. “Ser insultado por gente medíocre é mais uma medalha que ponho no peito”, concluiu o crítico, que garante nunca ter recebido “prendas” ou sofrido tentativas de “suborno” das marcas por causa dos seus textos de crítica.

Jovens questionam Eduardo Cintra Torres
A assistir à conferência com Eduardo Cintra Torres, inserida nas comemorações do 25º aniversário do jornal O MIRANTE, estavam cerca de 30 alunos do 10º ano do curso de Línguas e Humanidades, da Escola Secundária de Alves Redol. Diogo Couceiro, 15 anos, foi um dos dois alunos que se destacaram pela pertinência da sua questão: “Qual a influência das telenovelas, positiva ou negativa?”, inquiriu o jovem. A resposta curta, mas incisiva mereceu toda a atenção do orador, que prontamente mostrou a dualidade dos efeitos das telenovelas na sociedade, afinal estas tanto auxiliam “a aprender algo sobre o mundo real”, como são “produtos narcóticos”, que viciam, confessou o crítico de televisão e publicidade.
Da mesma turma do Diogo, também Carolina Santiago, 16 anos, escutou com atenção as palavras de Cintra Torres. “Foi a primeira vez a que assisti a uma conferência sobre televisão e publicidade e sinceramente gostei bastante”, confessou ao O MIRANTE a jovem que aspira ser jornalista. É através do seu blogue de moda, Heaven Rose, que Carolina contacta com o mundo, uma forma de explorar a cidadã jornalista que existe nela, visto que é como se criasse a “própria revista de moda”. A curiosidade da Carolina levou-a a questionar Cintra Torres sobre o futuro da publicidade nos blogues, uma vez que é através do seu blogue, que frequentemente é contactada por marcas com a finalidade de divulgar determinados produtos aos leitores. Uma “nova forma de publicidade”, assim a denominou Cintra Torres, que preferiu não dar palpites sobre a sua viabilidade no futuro, pois em tom de brincadeira referiu: “tenho um defeito enorme, não sou bruxo”. Agradada pelo conteúdo da conferência, Carolina destacou o interesse da temática abordada na conferência, assunto que a tem feito estar mais atenta e até a comentar com quem a rodeia os detalhes da publicidade que surge “subliminarmente” no dia-a-dia televisivo, nomeadamente nas telenovelas.